segunda-feira, 19 de agosto de 2024

O sabor do gelado

Se nunca tivéssemos provado gelado de morango, como saberíamos que se trata de uma invenção culinária quase perfeita! E depois de provarmos gelado de morango, se investirmos em gelado de alcaçuz e não tivermos nascido no norte da Europa, como saberíamos que se trata de um fenómeno culinário intrigante e profundamente desagradável? Mesmo assim, temos toda uma panóplia de sabores, cores e cheiros de gelado para testar. O céu é o limite!

Mas se nos dessem a provar gelado de morango e, depois de uma conquista tão apetitosa, nos retirassem esse sabor, sob o argumento de que os morangos são frutos proibidos, com o que é que ficávamos? Com a memória de um prazer, cada vez mais distante e longínquo.

Pois bem, não sendo gelado de morango, mas valores e ideais democráticos, a memória da democracia europeia, à luz dos interesses dos fundadores desta comunidade, é uma memória cada vez mais distante e longínqua. E porquê? Porque fomos tomados de assalto por valores ultraliberais, importados do outro lado do Atlântico (onde impera o gosto por gelados de nata), que não casam com a história de países de tal forma agarrados à ideia de humanização da sociedade, que para o efeito travaram não uma, mas duas das guerras mundiais num espaço de menos de 20 anos. Países onde a historiografia tem milénios e não séculos e com as fronteiras mais antigas do mundo. Países onde nasceu a história do pensamento, onde nasceram as principais expressões artísticas que se conhecem, onde a música começou a ser escrita, para que outros pudessem escutar, onde a escrita passou a ser editada para muitos poderem ler, onde a culinária foi inventada como arte. Estes mesmos países, que se combateram por séculos, alguns durante milénios, que por vontade exclusiva das suas populações, resolveram viver em Paz, de forma harmoniosa e com regras comuns, reconhecendo a mais-valia de uma União. 

Agora, são estes mesmos países, onde se instalou uma ideia original de Farol da Humanidade, que estão a ser tomados pela agilidade extremista. Países que debaixo do ataque de um "pseudo" imperador russo, que quer o mundo à sua imagem, financiando desde há muito os boys dos partidos de extrema direita, que bem sabem o poder da união (e por isso a combatem tão fortemente), enfrentam, pela primeira vez desde 1944, o risco de comprometer a ideia original de Paz que os seus fundadores tanto promoveram. E porquê? Porque é que isto acontece exatamente agora, passados anos suplício debaixo de crises financeiras intermináveis e políticos a cair em desgraça por essa Europa fora? Bem, por demérito dos políticos, atuais e antecessores, que se comprometeram com ideias que não podem subsistir com os valores humanos, que permitiram a desumanização da Europa em prol da "eficácia" económica, e com isso desvalorizar o trabalho e aumentar o risco sobre a segurança dos seus conterrâneos. Pulhas que se venderam por trocos aos "poderosos" inúteis da terra, que apenas querem aumentar fortunas pessoais, mesmo que para isso comprometam a convivência pacífica de milhares de cidadãos. 

Chegados aqui enchem todos a boca para falar de Democracia, onde é que estavam todos quando aceitaram os modelos económicos canibais, que permitem escravizar trabalhadores contra robots? Onde é que estavam todos quando, debaixo de uma profunda crise se puseram a analisar o mercado de trabalho grego e português, ditando regras draconianas para os seus trabalhadores, debaixo do chapéu de dívidas insustentáveis. Onde é que estavam todos quando deixaram dois gémeos ignorantes tomar um país europeu de assalto para experimentar as ideias do "pseudo" imperador russo. Onde estavam todos quando sentiram os tentáculos do regime ditatorial russo, por força da produção de energia, chegar à Europa de Leste, recentemente chegada à União, mas nem por isso protegida da mira do judoca falhado, ignorante, que muda o discurso consoante o interesse, que inventa a história do seu país porque não a conhece profundamente, e sobretudo que copia um modelo de fascismo que já todos vimos como terminou. 

Perante isto, e a acreditar que os europeus merecem mais e melhor. Onde é que estão aqueles que bazófias sempre viram os extremistas como ameaça, mas nunca ousaram descredibilizar as suas ideias tontas sobre imigração e segurança, com medo de perder "eleitorado"? Onde é que estão os galantes defensores dos ideais europeus, que falavam sobre tantos interesses económicos e tanta liberalização dos mercados, que permitiram que a Europa se tornasse irrelevante? Onde é que estão? Gostaríamos de lhes mostrar que a história, não sendo uma ciência exata, é uma enciclopédia para o futuro, e a única certeza que temos, perante os milénios anteriores, é a confiança na Humanidade, que mesmo com as maiores adversidades, se salvou sozinha, sem heróis ou figuras de proa que merecessem mais que todos os anónimos que a compuserem e que com eles coexistiram.

Meus amigos, assobiar para o lado é não permitir aos jovens europeus (nascidos ou importados de outras origens), conhecer o sabor do seu gelado favorito. As natas, em excesso de produção na Europa e diabolizadas pelos nutricionistas, não podem substituir a frescura da fruta e a acidez certa para um gelado.

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